3. BRASIL 26.9.12

1. O MENSALO BATE NA PORTA
2. ELE MERECE PERDO?
3. A POLTICA DE RABO PRESO
4. FAVELA OU CURRAL?

1. O MENSALO BATE NA PORTA
O ex-presidente Lula se cala diante das revelaes do empresrio Marcos Valrio, que o colocou como chefe do esquema  e o PT, agora, diz que o julgamento  golpe.
DANIEL PEREIRA E RODRIGO RANGEL

     Na edio passada, uma reportagem de VEJA revelou com exclusividade parte das confisses feitas pelo empresrio Marcos Valrio, o operador financeiro do mensalo, sobre as engrenagens do maior escndalo de corrupo poltica da histria do pas. Alm de confirmar a participao decisiva no suborno a parlamentares dos petistas Jos Dirceu e Delbio Soares, que figuram como rus no processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), Valrio implicou o ex-presidente Lula no esquema  e no papel de protagonista. Valrio diz que Lula era o verdadeiro comandante da organizao criminosa denunciada pelo Ministrio Pblico. Afirma que a quadrilha do mensalo contava com um caixa de 350 milhes de reais, o triplo, portanto, do valor identificado pela Polcia Federal. Alm disso, ressalta que desde a ecloso do escndalo, em 2005, teve Paulo Okamotto como interlocutor no PT. Amigo do peito e pagador de contas pessoais do ex-presidente da Repblica. Okamotto era fiador de um acordo que previa a impunidade em troca do seu silncio. O empresrio desabafou: No podem condenar apenas os mequetrefes. S no sobrou para o Lula porque eu, o Delbio e o Z no falamos
     Valrio sempre ameaou relatar em detalhes o funcionamento do mensalo. E sempre foi contido  segundo contou a pessoas prximas  pela promessa do ex-presidente e do PT de ajud-lo na Justia. Esse acordo se manteve de p at o incio do julgamento no STF. J condenado por corrupo ativa, peculato e lavagem de dinheiro, crimes que podem resultar numa pena de mais de 100 anos de priso. Valrio resolveu compartilhar seus segredos com um grupo seleto de confidentes. A revelao dessas conversas por VEJA desnorteou o PT. Lula, notrio entusiasta do debate em pblico, preferiu o silncio ao ser confrontado com as novas informaes. No rechaou o que Valrio contou nem tentou desqualific-lo. Dirceu e Delbio seguiram o chefe. No foi  toa. Segundo aliados, Lula no quer desafiar Valrio, que no teria mais nada a perder. Alm disso, teme que o empresrio revele mais detalhes se provocado. Rebat-lo agora, sem saber do arsenal  disposio de Valrio, seria uma estratgia de altssimo risco. A palavra de ordem  no comprar briga com o piv financeiro do mensalo. Contra-ataques, s em cima dos alvos de sempre, aqueles aos quais os petistas recorrem, como uma conveniente muleta, toda vez que so pilhados em irregularidades.
     Essa estratgia foi seguida  risca. Na segunda-feira, o PT divulgou uma nota conclamando a militncia para uma batalha do tamanho do Brasil  no caso, a defesa do partido e do ex-presidente. O texto no faz meno s confisses de Valrio. Ou seja: no explica do que Lula deve ser defendido. Na quinta-feira, outra nota foi publicada. Ela retoma a tese de que o mensalo e seus desdobramentos no passam de uma conspirao urdida pela oposio e por setores da imprensa para tirar o PT do comando do pas por meio de um golpe. Esse golpe seria alimentado com a divulgao de denncias sem provas. Quais denncias? A redao petista no teve coragem, de novo, de citar as confisses de Valrio, providencialmente esquecido. Fala de uma fantasiosa matria veiculada pela Revista Veja. Fantasiosa, por ora, s a nota do PT. Ela foi elaborada pelo presidente da sigla, Rui Falco. Em seguida, ele ligou para os presidentes de cinco partidos e pediu-lhes que subscrevessem o texto. No se tratou de uma solidariedade espontnea. Muito pelo contrrio. O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp, assinou sem ler e nem sequer consultou seus correligionrios  entre eles, o vice-presidente da Repblica, Michel Temer. No concordo com a nota, mas no podia recusar um pedido do presidente Lula, revelou um dos signatrios.
     O PT fabricou uma manifestao de apoio a Lula por saber que as confisses de Valrio podem ser investigadas. O procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, considerou importantes as revelaes e declarou que poder analisar o envolvimento de Lula no mensalo, tal qual relatado por Valrio, depois do julgamento do processo no STF. Os petistas tambm esperam usar a nota assinada por presidentes de partidos aliados no horrio eleitoral gratuito. A ideia  alegar que o PT est sendo vtima de uma conspirao de setores conservadores, os quais estariam pressionando o Supremo  que teve sete dos seus atuais dez ministros nomeados pelo governo petista a condenar os rus do mensalo. O processo no STF tem influenciado de forma negativa o desempenho dos petistas nas disputas municipais. Imposto ao partido por Lula, Fernando Haddad est na terceira colocao na corrida pela prefeitura paulistana. Na semana passada, num recurso  Justia Eleitoral, a equipe dele disse ser degradante a associao da imagem de Haddad  de Dirceu e Delbio, como tem feito o PSDB. Mais sintomtico dos efeitos do mensalo, impossvel.
     O PT sempre desdenhou dos impactos polticos do caso. Numa conversa com aliados dias antes do incio do julgamento no STF, Lula disse que o processo teria influncia zero sobre o partido e seus candidatos. Com a mesma confiana do lder messinico que prometera aos rus livr-los da condenao judicial, Lula lembrou que foi reeleito em 2006, um ano depois de ser acossado pela ameaa de um processo de impeachment, e fez de Dilma Rousseff sua sucessora em 2010. O mensalo seria uma mera piada de salo. Piadinha sem graa.


2. ELE MERECE PERDO?
Em caso de condenao, ministros do Supremo Tribunal Federal discutem a possibilidade de reduzir as penas do ex-deputado Roberto Jefferson, o delator do mensalo.
ADRIANO CEOLIN E LAURA DINIZ

     Na tarde da ltima quinta-feira, o ex-deputado Roberto Jefferson estava em seu apartamento, no Rio de Janeiro, assistindo pela televiso ao julgamento do mensalo  o seu julgamento. Sete anos depois de ter revelado a existncia do maior escndalo de corrupo poltica da histria, ele viu o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo no Supremo Tribunal Federal, conden-lo pelos crimes de corrupo passiva e lavagem de dinheiro. Esse Roberto Jefferson a no sou eu, comentou. Em 2005, o ento deputado confessou ter recebido 4 milhes de reais para que o seu partido, o PTB, apoiasse o governo Lula  e tambm forneceu as pistas iniciais que permitiram ao Congresso,  Polcia Federal e ao Ministrio Pblico identificar a maioria dos personagens envolvidos na trama montada pelo PT. Jefferson  ao mesmo tempo ru e principal testemunha de acusao. Dependendo do que decidirem os demais ministros, sua punio poder chegar a 28 anos e oito meses de priso. O Supremo, porm, pode reservar uma surpresa extra ao ex-parlamentar.
     A ponta do iceberg que deu origem ao escndalo do mensalo apareceu com o vdeo que mostrava um funcionrio dos Correios recebendo propina, ao mesmo tempo em que revelava que a estatal funcionava como um centro de captao de dinheiro para o PTB. Seria mais um dos muitos casos de corrupo se Roberto Jefferson, o ento todo-poderoso presidente do PTB, no tivesse decidido
contar o que sabia: o governo do presidente Lula havia montado uma gigantesca estrutura de arrecadao e distribuio de dinheiro para comprar partidos polticos e subornar parlamentares  um mensalo, como definiu pela primeira vez o deputado. Jefferson deu o nome dos envolvidos (seis parlamentares de quatro partidos), trouxe  luz a identidade do pagador (um carequinha chamado Marcos Valrio) e apontou o dedo para quem julgava ser o chefe (o ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu). As investigaes confirmaram o que o ex-deputado relatou. A Procuradoria-Geral da Repblica denunciou quarenta pessoas por diversos crimes e dez delas j foram condenadas pelo Supremo. Sem o testemunho de Roberto Jefferson, a punio aos corruptos no passaria de uma miragem.  por isso que alguns ministros estudam propor, na hiptese de condenao do ex-deputado, a reduo de sua pena, um prmio pela colaborao.
A lei permite e  um caso que pode, inclusive, ter efeito pedaggico, diz um ministro do STF que j conversou com alguns colegas sobre o caso. A ideia  recompensar Roberto Jefferson pela delao que levou  comprovao do esquema. H dois benefcios possveis, extrados de uma lei que trata da colaborao voluntria de rus nas investigaes dos crimes de que participaram  o perdo judicial, livrando-o de qualquer punio, e a reduo de at dois teros da pena. Esses benefcios so resultado do reconhecimento de que s a ajuda dos prprios infratores, em determinados casos, pode acelerar investigaes que se arrastariam por anos e teriam concluso incerta. O Judicirio se v diante de crimes to complexos atualmente que, muitas vezes, sem essa colaborao, no se chega aos culpados, diz o ex-ministro Carlos Velloso. Contar com a colaborao de corrus  uma tendncia mundial no combate ao crime organizado. O estado s dribla a intimidao imposta pela organizao criminosa a seus membros oferecendo mecanismos de proteo, refora o promotor paulista Jos Reinaldo Carneiro, especializado no combate ao crime organizado.
     Por enquanto, Jefferson diz que seu maior temor no  cumprir pena na cadeia aps o julgamento do mensalo. Ele estaria s voltas com um desafio bem mais prosaico: alimentar-se, um processo que ficou tormentoso depois que seu aparelho digestivo teve de ser remodelado em consequncia de uma cirurgia para a retirada de um tumor maligno no pncreas. Tirei quatro quintos do estmago, 1,5 metro de intestino delgado, um quarto do fgado e metade do pncreas. Tomei 500 pontos. Preciso comer, mas, se como um pouco a mais, meu estmago grita. Sinto clicas. Em tratamento contra o cncer, Jefferson vive uma rotina de quase recluso. Uma vez por semana, deixa o apartamento onde mora, na Barra da Tijuca, rumo ao hospital. O resto do tempo passa em casa, onde acompanha o noticirio com ateno redobrada. Na quinta-feira, os jornais repousados sobre a mesa da sala registravam o voto do ministro Joaquim Barbosa pela sua condenao. Olhe como estou magro nesta foto, diz. Jefferson era obeso quando desfilava como ponta de lana da tropa parlamentar da Repblica das Alagoas, no governo Collor. Chegou a pesar 175 quilos.
     Na gesto Lula, com um corpo bem mais magro, chegou a brincar, num depoimento no auge do escndalo do mensalo, com o fato de ter sido chamado de metrossexual. Refutou a pecha, apesar de sabore-la. Na ltima semana, a perda de peso foi agravada porque Jefferson sofreu uma infeco. Ele deixou o hospital com 74 quilos, 8 menos do que quando entrou. Para o ex-deputado, o cncer  resultado da carga diria de stress que enfrenta ao acompanhar o processo e toda a sua repercusso. Eu sempre descarreguei tudo no intestino. Estou bem, mas quando me deito no consigo tirar a tomada do crebro. Fico pensando o que ser da minha vida. Jefferson tenta medir as palavras quando fala do processo. Ao ouvir o Joaquim Barbosa me condenar, no me aborreci. Ele tem um estilo mais de promotor do que de juiz. Na sequncia, porm, ao fazer uma anlise geral do caso, emenda um comentrio que denota mais sua indignao. Volta  cena o combativo Jefferson de outrora. As condutas esto sendo julgadas num pacote. Est no bolo, est no oba-oba. Isso  muito cruel, cruel! E repete: No sou aquele Roberto Jefferson que o Joaquim Barbosa colocou no processo
     E como seria o Roberto Jefferson verdadeiro? Sou um poltico prtico, mas sei os limites. Nunca cruzei a linha da indignidade. Muitas vezes eu at bordeei essa linha. Caixa dois sempre teve e ainda tem. Jefferson diz no se arrepender de ter denunciado o mensalo. Quando enfrentei a briga, sabia que estava me suicidando. Eu botei fogo na roupa. Eu me imolei. Dizendo-se sem saudade da Cmara e prestes a deixar a presidncia do PTB, ele lamenta no poder viajar pelo pas para conversar com dirigentes do partido ou para andar de motocicleta  tem duas Harley-Davidson (uma modelo Road King e outra Fat Boy). Na quarta-feira, aps receber alta, negou-se a usar uma cadeira de rodas para deixar o hospital. Saiu andando.  assim que espera sair tambm do julgamento: doente, magro e at culpado, mas de p. O destino de Jefferson e dos outros rus do chamado ncleo poltico do mensalo comeou a ser traado na semana passada. O relator j pediu a condenao de doze dos 23 nomes analisados nesse tpico. Joaquim Barbosa j antecipou que houve, de fato, um esquema de compra de apoio parlamentar no governo Lula  justamente o que Jefferson denunciou em 2005. Mesmo com voto j proferido por sua condenao, o delator tem o que comemorar.


3. A POLTICA DE RABO PRESO
Os acordos de candidatos fechados nas campanhas com empresrios, grupelhos e mfias so as sementes da corrupo que vo germinar mais tarde com eles no poder.
CAROLINA RANGEL

     Campanha eleitoral hoje, escndalo de corrupo amanh. Distantes dos grandes centros  e tambm da fiscalizao da imprensa independente e dos rgos de controle , milhares de candidatos Brasil afora fecharam nos ltimos meses e semanas os acordos polticos, financeiros e logsticos que podero lev-los  vitria. Mas, uma vez eleitos, chegar a fatura. Ela ser paga, como sempre, pelos cidados. Muitos polticos esto, desde j, com o rabo preso. A duas semanas das eleies, VEJA ouviu especialistas para entender as engrenagens desse mecanismo que movimenta a robusta mquina da corrupo no pas. Os trs principais caminhos que levam aos escndalos constam do quadro abaixo. Em comum, h sempre algum que oferece vantagens ao candidato para no futuro obter benefcios, muitas vezes ilegais, dos eleitos.
A teoria encontra amplo respaldo na realidade. Tome-se o exemplo de So Loureno da Serra, municpio no interior de So Paulo com 11.000 eleitores e oramento anual de 28 milhes de reais. Nas eleies de quatro anos atrs, o empresrio Antonio Carlos Soares, dono de uma empresa de equipamentos de som, fez o servio de udio da campanha de Lener do Nascimento Ribeiro (DEM). Coisas simples, como alto-falantes em carros de som e microfones em comcios. O pagamento veio depois da vitria do candidato. Em janeiro de 2009, Soares ganhou um cargo na prefeitura, com salrio de 1200 reais. Em depoimento  polcia, o empresrio confirmou que obteve o cargo em troca da ajuda na campanha. A prefeitura continuou contratando seus servios para eventos. Soares recebeu cerca de 13.000 reais, emitindo notas fiscais fajutas. O falatrio na cidade levou o Ministrio Pblico a fazer investigaes. Soares foi exonerado e Lener renunciou  prefeitura em 2010. Como esses, h exemplos por todo o pas  ainda que, infelizmente, quase nunca com o desfecho positivo da associao entre Soares e Lener. De um total nacional de mais de 5500 prefeitos da atual legislatura, cerca de 200 foram cassados por corrupo.
     Na prtica, reproduz-se em nvel municipal, e com um grau de refinamento muito menor, o que ocorre nas eleies para os cargos mais altos do pas. As roubalheiras menores so parte da cadeia alimentar da alta poltica. No existe sada fcil para quebrar esse crculo vicioso. Corrupo no se extingue, controla-se, afirma Roberto Livianu, promotor de Justia e coordenador da campanha No aceito a corrupo. Uma das sadas  reduzir de maneira drstica o nmero de cargos comissionados. Sem indicaes polticas, fica mais difcil aparelhar a mquina e fraudar contratos. Outro avano seria acabar com as doaes ocultas, aquelas em que empresrios doam dinheiro ao partido e no a um candidato determinado. Tudo fachada. O partido repassa a doao ao poltico previamente escolhido pelo empresrio com interesses comerciais na futura administrao. Em muitos casos, para fechar todas as probabilidades, so feitas doaes a todos os candidatos viveis. Fique de olho. Isso pode no extinguir a corrupo, como alerta o promotor Livianu, mas ajuda a control-la.

COMO NASCE UM ESCNDALO
Os principais problemas de campanhas eleitorais que depois terminam em corrupo no governo.

DOAES
O empresrio doa dinheiro  campanha, quase sempre via caixa dois. Em troca, obtm contratos sem licitao ou facilidades burocrticas, como mudanas de regras que favoream seus negcios.

ACORDOS
O candidato faz um acerto poltico com algum grupo, que depois ser agraciado com cargos e espaos no governo.  No raramente, esse loteamento abre espao para a corrupo, sem que o mandatrio possa intervir.

ALIANAS
Grupos ligados a atividade ilegais, como bicheiros, patrocinam das sombras as campanhas de polticos. Uma vez eleitos, eles retribuem em forma de menor fiscalizao ou alteraes na lei para regularizar a contraveno.


4. FAVELA OU CURRAL?
Documentos apreendidos pela polcia em favela do Rio revelam as tticas sujas de uma das maiores milcias da cidade para interferir na eleio municipal.
LESLIE LEITO

     Nas ltimas trs dcadas, as milcias, organizaes criminosas lideradas por policiais e ex-policias, vm se alastrando no Rio de Janeiro sob o olhar complacente das autoridades e  sombra do estado. Elas avanaram sobre os domnios do trfico, passaram a comandar territrios na cidade e consolidaram seu poder  base do assistencialismo e do medo. Como tm centenas de milhares de pessoas sob seu jugo, essas gangues de farda ganham fora em perodos eleitorais, quando so procuradas por candidatos em busca de apoio, arbitram sobre quem faz campanha em seu pedao e lanam nomes egressos de suas prprias fileiras. Desencadeada h trs meses, uma operao da Polcia Civil em um dos redutos dessas quadrilhas  a favela Gardnia Azul, na Zona Oeste carioca  escancara os mtodos utilizados por elas para fazer valer sua vontade. A recm-concluda investigao, que resultou no processo de nmero 0027367-8420118190203, rene um revelador conjunto de documentos, material ao qual VEJA teve acesso.
     Em meio  papelada, apreendida no centro de assistncia social mantido pelo ex-vereador Cristiano Mathias Giro, surgiu uma carta com data de 25 de outubro de 2011. A autora  Neuza Maria Correa Barreiros, conhecida como Magrela, ento presidente da associao de moradores. A carta era uma forma de Magrela prestar contas ao Patro, como ela chama Giro, que, da cadeia  ele foi detido em 2009 e condenado a catorze anos de priso por formao de quadrilha e lavagem de dinheiro , continua no comando da milcia local, segundo informaes da prpria polcia. Na correspondncia, Magrela, que tambm responde a processo por integrar a quadrilha, relata ao Patro ter sido procurada pelo subprefeito da regio, Tiago Mohamed, um dos principais aliados do prefeito Eduardo Paes, para tratar de poltica. Num dos trechos, ela conta: O Tiago, subprefeito, falou que o prefeito quer uma agenda comigo. J sentiu o que vai ser, n? Pedir para apoiar algum dele, lgico. 
     Procurados por VEJA, tanto Eduardo Paes como Magrela negam ter se reunido. O subprefeito Tiago Mohamed tambm nega ter falado com a ex-presidente da associao. Magrela, por sua vez, conta uma histria diferente. Ela diz que recebeu, sim, um pedido para se reunir com Paes, mas afirma que s se encontrou mesmo com assessores do ex-chefe de gabinete do prefeito e vereador candidato  reeleio Luiz Antonio Guaran (PMDB). Em abril passado, Guaran contratou como assessor na Cmara um dos ex-funcionrios do gabinete de Giro, Anderson Silva Moreira, tambm conhecido como Zoio. O tal assessor  hoje coordenador de campanha de Guaran em Gardnia Azul. A regio,  bom que se diga,  base eleitoral de Eduardo Paes, de onde ele emergiu para a poltica no incio dos anos 90. Natural, portanto, que sua chapa conte com apoio macio ali. Mesmo assim, chama ateno o fato de, numa rea onde residem 20.000 pessoas, praticamente no haver sinais de propaganda de nenhum outro postulante  prefeitura. 
     A operao em Gardnia Azul tambm trouxe  tona documentos reveladores das sombrias prticas da milcia. Um conjunto deles diz respeito s eleies de 2010 e indica que ali foi constitudo um tpico curral eleitoral. Foram apreendidos boletins oficiais de sete urnas da regio, indicando quantos votos recebeu cada candidato a deputado estadual ou federal, governador e presidente. Com essa contabilidade, concluiu a investigao, os marginais puderam saber se suas ordens realmente haviam sido obedecidas. A polcia encontrou ainda uma lista atualizada com o nome de boa parte da populao adulta da favela, seguido do respectivo endereo e nmero do ttulo de eleitor. Ter acesso ao extrato das urnas e a dados pessoais  uma forma clara de a bandidagem demonstrar que controla uma etapa decisiva do processo eleitoral e espalhar o medo, diz o delegado Antnio Ricardo, que conduziu a investigao. A intimidao de fato aconteceu, conforme moradores relataram  polcia com a promessa do anonimato. E a ao da quadrilha foi alm. Afirma o delegado: H indcios concretos de que esses bandidos obrigavam muita gente da favela a transferir o ttulo para o Rio justamente para votar no candidato escolhido por eles.
     Por muito tempo, as milcias foram vistas no Rio como mal menor ou at necessrio, uma vez que seus integrantes agiam como justiceiros no extermnio dos traficantes  equvoco que mesclava cegueira com ideologia e que custou caro. Sem serem coibidas, elas esparramaram tentculos pela cidade e pelos crculos do poder, tornando-se to bem armadas e violentas quanto as quadrilhas de traficantes que iam expulsando de certas reas. Um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro dimensionou o avano desses grupos. Em 2005, eles controlavam 10% das favelas cariocas: hoje comandam 41%. Formar bases slidas na poltica  parte da estratgia para garantir sua fora e sobrevivncia. Na semana passada, a Secretaria de Segurana enviou ao Tribunal Eleitoral Regional (TRE) 25 nomes de candidatos suspeitos de integrar milcias  pelo menos um deles, j se sabe, pertencia  coligao de Marcelo Freixo (PSOL), cuja bandeira-mor  justamente o combate a essas gangues. As evidncias recolhidas em Gardnia Azul deixam da claro que atacar as milcias no  apenas uma forma de combater a violncia.  tambm uma batalha pela preservao da cidadania. 


